Arquivo diários:14 de junho de 2018

Multipropriedades crescem mais de 46% em um ano e devem atingir VGV de R$ 15 bilhões.

O segmento de multipropriedades deve ultrapassar neste ano em tamanho o mercado de lançamentos residenciais da cidade de São Paulo, maior polo imobiliário do país. Pesquisa da Caio Calfat Real Estate Consulting, consultoria especializada no setor imobiliário e hoteleiro no Brasil, mostra que a mulitipropriedade cresceu em dois anos e tem se consolidado como um dos motores de avanço do setor imobiliário como um todo em um cenário de timidez na retomada da atividade econômica. 

O levantamento de 2017 de empreendimentos fracionados indicava um VGV (Valor Geral de Vendas) em lançamento, construção e em operação de R$ 11 bilhões. O estudo de 2018 aponta que o VGV nacional dos imóveis de posse compartilhada deve atingir R$ 15 bilhões. 

Para efeito de comparação, conforme dados do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP), o mercado de novos imóveis residenciais da capital paulista, em 12 meses até março, registra um VGV de R$ 12,4 bilhões. 

O estudo completo será divulgado no evento ADIT Share, entre 18 e 19 de junho, em Porto de Galinhas (PE). O documento revela forte crescimento do número de imóveis fracionados e compartilhados desde o início do ano passado. A quantidade total saltou de 54 em 2017 para 79 até maio de 2018, um crescimento de 46,3%. Além destes, a pesquisa identificou 18 novos projetos em 10 cidades, como Rio de Janeiro, Gramado, Balneário Camboriú e Fortaleza, que ainda não chegaram ao mercado. 

Segundo Caio Calfat, diretor da consultoria e vice-presidente de Assuntos Turísticos -Imobiliário do Secovi-SP, o crescimento do segmento deve continuar forte, uma vez que as incorporadoras do mercado imobiliário convencional e as maiores redes hoteleiras passaram a se interessar pelo mercado. “O avanço do modelo chamou a atenção dos grandes grupos desde o ano passado e, com isso, cada vez mais empresas começam a planejar lançamentos dentro desse perfil”, afirma. 

Calfat enxerga ainda a multipropriedade como um modelo com grande potencial de ganho de escala, na medida em que se torne mais conhecida. Conforme o consultor, “O formato tem um apelo muito forte; imagine se, em lugar ser dono de apenas um imóvel de férias, você seja proprietário de cinco ou dez e não precise se limitar a apenas um destino?” 

O modelo atrai ainda proprietários de primeira viagem, aqueles que sonham com um imóvel para férias, mas não têm capital para comprá-lo. “Como o próprio nome indica, o valor para a aquisição é uma fração do total da propriedade e isso viabiliza a aquisição pelo custo de um carro”, compara. 

O estudo da Caio Calfat mostra que o valor médio por fração neste ano está em R$ 48 mil, e a quantidade média de semanas partilhadas pelos usuários por empreendimento se situa em 2,8. 

O conceito de propriedade compartilhada é simples: o imóvel, por exemplo, uma casa ou apartamento em um condomínio turístico ou resort, é dividido em frações, que são vendidas para diferentes pessoas. De acordo com a quantidade de compradores, cada proprietário tem direito a um determinado número de semanas para uso do local. 

Além de usufruir de um propriedade compartilhada, existe a possibilidade de os proprietários utilizarem o intercâmbio de férias através das duas maiores empresas do gênero, RCI e a Interval. Os grupos internacionais atuam no mundo inteiro e conectam donos de multipropriedades nos principais destinos do planeta. 

Calfat também ressalta a aprovação pelo Senado, do Projeto de Lei (PLS 54/2017), que dispõe sobre o regime jurídico da multipropriedade no Brasil. Segundo o consultor, a norma vai conferir segurança jurídica ao sistema. “Com o crescimento do segmento, a regulamentação se tornou essencial para trazer segurança tanto ao empreendedor quanto ao comprador”, afirma Calfat.

O consultor foi responsável pela criação do Grupo de Trabalho de Multipropriedades montado na Vice Presidência do SECOVI-SP, que desenvolveu o Projeto de Lei. O PL se encontra em aprovação na Câmara dos Deputados, onde no dia 13/06/2018 será realizada a Audiência Pública na Comissão de Turismo. 

Outra iniciativa da entidade para assegurar o desenvolvimento saudável do mercado, conforme o especialista é a criação de um “Manual de Melhores Práticas de Produção de Multipropriedades”. O documento deve seguir os mesmos moldes do “Manual de Melhores Práticas para Hotéis de Investidores Imobiliários Pulverizados”, referência no mercado de condo-hotéis. 

O interesse das incorporadoras tradicionais, a segurança jurídica, o apoio das entidades de representação do setor imobiliário e a disseminação da cultura de compartilhamento vão sustentar o ritmo forte de avanço do segmento de multipropriedades nos próximos anos. Para Calfat, as propriedades fracionadas têm tudo para se consolidar como uma das principais apostas do mercado imobiliário, conforme o segmento também deve se beneficiar com a retomada econômica mais forte a partir de 2019. 

 

Jovens de Hong Kong vivem em ‘nanoapartamentos’.

Alta dos aluguéis obriga trabalhadores a viverem em espaços cada vez menores, em prédios compartilhados

Michelle Chau em sua cama, no espaço que aluga num prédio de áreas compartilhadas no distrito de Mong Kok, em Hong Kong: nanoapartamentos – ISAAC LAWRENCE / AFP

HONG KONG – Na antiga colônia britânica de Hong Kong, há muitos edifícios de miniestúdios, ainda que equipados com dispositivos eletrônicos de última geração. Os agentes imobiliários alegam que oferecem um estilo de vida diferente, com uma fatura mais acessível.

Adrian Law, de 25 anos, trabalha com finanças. Pagou mais de seis milhões de dólares de Hong Kong (US$ 760 mil) há dois anos por um estúdio de 27m² no bairro boêmio de Sai Ying Pun, oeste da ilha. Cada andar do edifício conta com quatro apartamentos, alguns deles nanoapartamentos, como se designam as acomodações com menos de 20m².

O jovem aproveita ao máximo o espaço com móveis modulados. A cama se dobra contra a parede e deixa um espaço para o escritório, enquanto a maioria de seus pertences estão na casa de seus pais. A fechadura, a lavadora e a televisão se ativam com sensores de impressões digitais, e Law assegura ter tudo que precisa.

“Os agentes imobiliários vendem aos compradores o conceito de que só necessitam de um lugar para dormir, e que tudo além disso pode ser feito fora de casa” – conta Law, que compra refeições prontas porque sua cozinha é muito pequena.

Seus pais o ajudaram com a entrada de 30% do imóvel e ele paga mensalmente 24 mil dólares de Hong Kong (US$ 3.050), ou seja, cerca de 40% do seu salário.

“Sendo proprietário, saio ganhando. Alugando você gasta todo seu salário para nada.”

Adrian Law, de Hong Kong, compra comida pronta porque a cozinha é muito pequena: tudo em um só cômodo – ANTHONY WALLACE / AFP

AMEAÇA À SAÚDE

Segundo o estudo de 2018 do Gabinete Especializado em Demografia, o mercado imobiliário de Hong Kong é o mais caro do mundo. O preço médio das habitações é 19,4 vezes maior do que a renda média. Isso se deve, sobretudo, aos ricos investidores chineses e aos agentes imobiliários.

O governo, que em 1997, voltou a ficar sob a soberania chinesa, é acusado de não fazer nada para frear essa espiral. Os investidores compram mais de 60% dos imóveis novos com menos de 40m², segundo números do governo da cidade de 7,4 milhões de habitantes. Como a legislação local não prevê um tamanho mínimo, as imobiliárias reduzem o espaço o máximo possível.

Ryan Ip, investigador da Fundação Nossa Hong Kong, denuncia uma tendência que, segundo ele, repercute na saúde mental e física das pessoas. Os aluguéis também estão pelas nuvens e o tempo de espera por uma moradia social é às vezes de cinco anos.

Segundo Ryan Ip, a única solução é aumentar a superfície terrestre, inclusive ganhando terras ao mar. Outros especialistas apostam em explorar antigos centros industriais ou terrenos públicos. O governo estuda um leque de possibilidades, como a criação de ilhas artificiais e o uso de parques naturais. Outros imaginam transformar contâineres de barcos em casas ou criar lugares para viver no interior de tubos de concreto. Entretanto, muitos alugam acomodações “subdivididas”, ou seja, distribuídas em espaços minúsculos e insalubres.

COMPARTILHAR O ESPAÇO

Para os que ganham bons salários também não é fácil. Jezz Ng, de 29 anos, ganha 32 mil dólares de Hong Kong por mês (US$ 4.000) como professora. Optou por viver em uma nova residência concebida para aluguéis compartilhados. No fim de semana, volta para a casa de seus pais.

Jezz Ng no pequeno espaço alugado em Hong Kong: nos finais de semana, ela volta para a casa dos pais – ISAAC LAWRENCE / AFP

Compartilha o imóvel com outras sete mulheres. Sua acomodação é pequena, com cama para uma pessoa e um escritório. O conjunto, chamado Biblioteca, ocupa um edifício residencial remodelado cujo proprietário aluga 166 camas em 15 andares a um preço que oscila entre 3.500 e 6.200 dólares de Hong Kong (entre US$ 420 e US$ 780). Os inquilinos compartilham os espaços comuns, como as duchas, a cozinha e os quartos dedicados aos estudos e outras atividades.

“Quando comecei a buscar um aluguel, meu limite era de oito mil dólares de Hong Kong (US$ 1.000), mas um estúdio pode superar facilmente essa soma” – explica Jezz Ng, que agora paga 5.600 dólares de Hong Kong (US$ 700) por mês por um aluguel compartilhado.

Fonte: https://oglobo.globo.com