Arquivo diários:27 de maio de 2019

Os ‘baixos’ que estão em alta em São Paulo: Pinheiros, Augusta e Mooca


No passado não distante, esses lugares eram considerados abandonados e degradados; com atuação discreta ou inexistente do poder público, tinham pouco a oferecer; hoje são lugares onde as pessoas se reconhecem e têm vivência cotidiana

SÃO PAULO – O colégio fundado por jesuítas que deu origem à cidade de São Paulo nasceu no alto de uma colina. Naturalmente, o poder instituído (religioso e político) concentrava-se naquele pedaço (alto) de chão. “Já nas regiões mais baixas, ficavam os marginalizados e, consequentemente, as regras eram menos restritivas. Podemos supor que havia mais liberdade nos baixos”, ponderou o arquiteto e coordenador pedagógico da Escola da Cidade, Vinicius Andrade.

O contexto histórico pode começar a explicar a origem e a fama de certos baixos da cidade, como Baixo Pinheiros, Baixo Augusta, Mooca Baixa e outros – que imediatamente nos remetem a boemia, espírito artístico e de maior tolerância e liberdade. No passado não distante, esses lugares eram considerados abandonados e degradados.

Com uma atuação discreta ou inexistente do poder público, eles tinham pouco a oferecer. “São locais que já foram prioritariamente ocupados por uma população pobre. Mas que, em determinado ponto, despertaram o interesse de grupos sociais e culturais. Começa então uma ocupação que não é para expulsar, mas é criativa. Não é excludente. Ao contrário, é inclusiva”, disse a professora de Ciências Sociais da FAAP, Crislaine de Toledo-Plaça.

Já a professora de arquitetura e urbanismo do Mackenzie Maria Isabel Villac ressalta o caráter aglutinador desses espaços. “São lugares em que as pessoas se reconhecem e têm uma vivência cotidiana. Nos baixos, a sociedade se desenvolve para fora, para rua e para os espaços públicos”, disse. Não à toa, atualmente, possuem (ou buscam possuir) ocupação boêmia ou artística. São ateliês, bares, cafés, restaurantes, brechós…

Para Crislaine, o problema inicia-se com o poder público. “Quando começam os projetos de ‘revitalização’, invariavelmente a população pobre é expulsa. A cultura de consumo muda. O antigo morador e frequentador já não tem mais condições de viver ou se divertir no lugar. Depois, com a chegada das incorporadoras e condomínios, fecha-se o ciclo”, afirmou.

Bairros como Vila Madalena, Pinheiros ou Jardins já envelheceram ou estão super povoados. A consequência disso é um mercado imobiliário sedento por opções. E os baixos começam a entrar no radar. “Todos esses lugares eram bem situados e tinham aluguéis muito baixos. Agora, são partes da cidade que hoje têm boa infraestrutura e áreas de interesse. Os aluguéis subiram, mas como oscilaram durante muito tempo é impossível precisar se foi um aumento de 10, 20 ou 30%”, afirmou o presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci), José Augusto Viana Neto.

Moda marca e cobra um preço do frequentador

Ao se referir a um bairro como “baixo”, estamos emprestando uma personalidade e um valor para ele. Por exemplo, se estamos no “baixo alguma coisa”, podemos, de certo, tomar um chope artesanal, uma gim tônica refrescante, frequentar uma barbearia gourmet ou uma lanchonete vegana. Claro, tudo isso está na moda e tem um preço para quem frequenta ou mora nesses lugares. Mas quem não gostaria de ser um “baixo”?

Para Thiego Montiel, um dos proprietários do bar Pitico, localizado na Rua Guaicuí, um dos espaços que hoje se convencionou chamar de Baixo Pinheiros, a questão semântica é a que menos importa. “Eu até acho que a gente é mais Largo da Batata, mas a marca Baixo de Pinheiros pegou e alguns comerciantes até usam em seus estabelecimentos”, comenta.

Hoje, Montiel e outros comerciantes dão os primeiros passos de uma associação – e também buscam um diálogo com os moradores. Aliás, a relação entre comércio do Baixo Pinheiros/Largo da Batata não é uniforme. “Eu acho que o bairro melhorou”, disse o morador Mauro Garcia, de 69 anos.

Augusta. Um dos baixos mais tradicionais de São Paulo é o Augusta. A região passou por um período de decadência e falências bastante prolongado (iniciado em meados dos anos 1990). Mas há dez anos, com o aparecimento do bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, a “moral” da vizinhança mudou.

O sucesso do carnaval trouxe um novo respiro para a região, que hoje se prolonga até a área da Praça Roosevelt. “Influenciamos a região sem alterar ou expulsar ninguém. Um dos nossos princípios é de que o bairro seja para todos”, conta o presidente do Baixo Augusta, Alexandre Natacci.

O curioso é que hoje o baixo Augusta está sendo frequentado por um público mais velho. Restaurantes e bares estão conseguindo atrair um público menos punk ou gótico e com mais poder aquisitivo.

Na Mooca, belo. A Mooca baixa prefere ser chamada de Distrito Mooca. Basicamente, ela compreende a Rua Borges de Figueiredo, parte da Rua da Mooca e o entorno da linha férrea. Na Mooca, a “baixa” não nasceu de um movimento espontâneo de ocupação, mas do trabalho de um morador e empresário local, o José Américo Crippa Filho, o Tatá. “Era uma região sem nenhum atrativo, uma área industrial quase abandonada”, disse.

Tatá tem trabalhado como uma espécie de embaixador desse pedaço da Mooca – mostrando galpões industriais sem uso para artistas e empresários. Os primeiros frutos começam a aparecer e a região já tem estúdios de tatuagem, galerias de arte e restaurantes.

“É atrativo porque o aluguel de um galpão de 200 m² sai por menos de R$ 3 mil”, contou. “Nossa ideia é que o morador da Mooca, que já respeita a tradição do lugar, não precise ir para fora do bairro para se divertir.”

A joia da coroa da reocupação seria a revitalização da Fábrica da Antarctica – que está fechada desde 1995. O imóvel foi tombado em 2016, mas nada aconteceu por lá depois.

O caso Santa Cecília. O carimbo de “baixo” é definitivamente um bom negócio. De olho nos lucros que a profusão de restaurantes, cervejarias e cafés pode proporcionar, o mercado imobiliário tenta emplacar a Santa Cecília como uma “baixa Higienópolis”. Por enquanto, o apelido apenas rendeu boas piadas.

“No começo não tinha ninguém aqui. Agora tem cafeteria, vegano, restaurante japonês, alemão, cervejaria, hortifrúti”, disse Rafael Spencer, proprietário do restaurante Sotero. “E sou muito radical. Santa Cecília é Santa Cecília. Não tem a ver com Higienópolis. Isso é gente querendo se passar como sendo de alto nível. Não precisa. Santa Cecília já é bastante bom do jeito que é.”

Onde ir

O baixo Pinheiros

– Mica: Restaurante japonês / R. Guaicuí, 33

– Teus: Restaurante que serve drinques e pratos de influência variada / R. Natingui, 1.548

– Taka Daru: Restaurante japonês / R. Costa Carvalho, 234

– Garoa Hostel: Hospedaria Guaicuí, 72

– Hoegaarden Greenhouse: Cervejaria / R. Fernão Dias, 672

– Pitico: Bar dentro de um estacionamento e com cadeiras de praia /R. Guaicuí, 61

– Kingston Club SP: Meio bar, meio balada com clima jamaicano /R. Álvaro Anes, 97

Mooca Baixa (Dist. Mooca)

– Cadillac BBQ: Casa de churrasco texano, drinques e cerveja / R. Borges de Figueiredo, 60

– Hospedaria: Restaurante de comida caseira e de imigrantes/ R. Borges de Figueiredo, 82

– A Pizza da Mooca: Pizzaria /R. da Mooca, 1747

– Paint Black Tatoo: Estúdio de Tatuagem /R. da Mooca, 1775

Baixo Augusta

– Home SP: Cervejas e coquetéis / R. Matias Aires, 94

– Restaurante Jiquitaia: Comida brasileira e bar de coquetéis /R. Antônio Carlos, 268

– Guarita Burguer: Hamburger e mais coquetel / R. Antônio Carlos, 395

– Casa do Baixo Augusta: Casa de shows e balada / R. Rêgo Freitas, 553

Fonte: www.terra.com.br

Gilberto Amendola