Arquivo diários:1 de outubro de 2019

Brasil pode reciclar 98% dos resíduos da construção civil, mas só consegue dar conta de 21%

Cerca de 98% do resíduo gerado pela construção civil podem ser reciclados, mas falta de informação e de ações proativas dos municípios fazem com que apenas 21% sejam de fato reaproveitados

“Se todo o resíduo gerado pela indústria da construção civil do país em um único dia fosse reciclado – e 98% dele é reciclável – ele poderia ajudar a construir 2.134 Maracanãs. A informação é da Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção Civil e Demolição (Abrecon) e é calculada a partir da estimativa de que são produzidos 520 kg de resíduo por habitante por dia – valor que está em consonância com o índice do Ministério do Meio Ambiente. Porém, de cerca de 290,5 toneladas de entulho gerados diariamente no país, apenas 21% são reciclados.

Ao contrário do que se possa imaginar, os principais responsáveis por isso não são as obras de maior porte. “As grandes obras, feitas por grandes construtoras, sofrem bastante fiscalização por parte dos órgãos públicos e têm políticas de sustentabilidade”, explica o engenheiro ambiental do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná (Crea-PR) Luiz Guilherme Grein Vieira.

Além disso, essas empresas têm interesse em ter empreendimentos com certificação de sustentabilidade, o que exige medidas para redução dos impactos ambientais da obra e do produto final, como atingir metas de reciclagem de resíduo.

Resíduos da construção civil gerados pelas pequenas obras e descartados da maneira errada é que são o grande problema para a reciclagem. Foto: Bigstock

O problema está, então, no pequeno gerador de entulho. “O pessoal que faz uma reforma no fim de semana, ou que às vezes está construindo uma laje em casa, e que faz isso sem um alvará de construção, sem um engenheiro responsável e, obviamente, com poucos recursos”, aponta Vieira.

Dados do Comitê de Incentivo à Formalização na Construção Civil indicam que aproximadamente 50% das obras no Brasil são irregulares, ou seja, não possuem responsável técnico e/ou possuem trabalhadores sem vínculo empregatício. De acordo com o presidente da Abrecon, Hewerton Bartoli, são essas as obras que produzem entre 60 a 70% dos resíduos da construção civil – o qual tem grande probabilidade de ser descartado de maneira incorreta.

De acordo com os especialistas, um motivo para isso é a falta de educação ambiental dos próprios produtores de entulho. Sem entender o tamanho do problema gerado pelo resíduo da construção civil – e do gasto que os municípios têm para recolher tudo o que é descartado inadequadamente em terrenos pela cidade, eles não dão a devida importância ao descarte correto e à reciclagem desse tipo de lixo. Muitos também não sabem que, ao entregar o resíduo para que um terceiro faça o descarte – um caçambeiro, por exemplo – é preciso que esta empresa seja especializada, esteja cadastrada na prefeitura do município, tenha as licenças ambientais adequadas e apresente um documento declarando qual será destinação dada àquele lixo.

Além disso, falta conhecimento sobre a responsabilidade sobre o entulho gerado: mesmo quando o material é entregue a um terceiro para o descarte, quem responde por ele é o gerador. Se os restos de construção acabarem em um terreno baldio e o responsável pela obra de que veio o lixo for identificado, ele também vai responder por crime ambiental.

É preciso considerar ainda que a informalidade dessas reformas e pequenas construções dificulta qualquer tipo de ação de fiscalização. “Quando não tem alvará fica muito difícil localizar essas obras e fazer a fiscalização”, explica Vieira.

“Foto: Bigstock”

Poder público
Do outro lado desta moeda está o poder público, que deve ser o responsável por combater a desinformação dos cidadãos sobre o descarte e reciclagem de entulho, além de desenvolver programas que incentivem a reciclagem.

“Eu diria que a maioria dos municípios tem uma verba para limpar pontos clandestinos de descarte, onde todo dia vem um caçambeiro jogar lixo. Só que é muito mais caro limpar o entulho assim do que investir em educação ambiental, mostrar que tem outros caminhos”, afirma Bartoli. Para ele, os municípios precisam pensar a gestão do resíduo de construção de forma mais proativa do que reativa.

Isso se configura pela criação de um plano de gestão de resíduos sólidos que inclua os resíduos da construção civil e pense em soluções para pequenos e grandes geradores. Entre elas, estão a criação de ecopontos para descarte do entulho, a adoção de sistemas eletrônicos para a gestão de resíduo na cidade, a implementação de programas de uso de material reciclado nas obras públicas dos municípios. Além disso, as prefeituras devem investir na divulgação de todas essas ações.

*Especial para a Gazeta do Povo”
Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br

Novas modalidades de investimento em imóveis atraem o pequeno poupador

Reza a lenda que os imóveis estão entre os investimentos preferidos no país. “Brasileiro gosta de investir em tijolo”, você já deve ter ouvido algo nesse gênero, não? Apostando nisso, fintechs, as startups de serviços financeiros, têm conquistado pessoas físicas para emprestar dinheiro a construtoras, com a promessa de retornos atrativos. São os chamados investimentos coletivos no setor imobiliário.

O modelo ainda é incomum, mas cresce. Foi inaugurado em 2015 pela Urbe.me, plataforma que concentra o maior volume de captações, pela qual 30 empreendimentos imobiliários captaram R$ 49 milhões até o momento. Desde então, outras fintechs se especializaram nesse tipo de investimento, como a Expeer, a Glebba e a Cap.rate.

Essas empresas são reguladas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) ou pelo Banco Central (BC), conforme o modelo em que são estruturadas: via “crowdfunding” — espécie de vaquinha virtual, regulada pela CVM — ou “peer to peer” — empréstimo entre pessoas, regulado pelo BC.

Ambos os tipos de plataforma conectam investidores em busca de diversificação de carteiras a incorporadoras que precisam de recursos para financiar seus projetos.

“As fintechs vieram para suprir uma demanda das construtoras: falta dinheiro no caixa para começar as obras. Para muitas empresas, estruturar títulos de dívidas como debêntures e Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) custa caro e conseguir financiamento no banco é difícil no início das construções, quando os empreendimentos ainda não foram vendidos.”

As plataformas se difundem diante da perspectiva de que o setor imobiliário vai entrar em um novo ciclo de crescimento. Apesar do desempenho frustrante da economia, os estoques das incorporadoras dão sinais de melhora e os lançamentos vêm sendo retomados, o que leva as empresas a buscar mais recursos.

Do outro lado, em um ambiente de taxa básica de juros, a Selic, na mínima histórica, existe uma demanda de pequenos investidores por investimentos de maior risco, que deem retornos mais altos. Os investimentos coletivos no setor imobiliário são mais uma alternativa de aplicação financeira para quem gosta de investir em imóveis e está disposto a encarar risco para, quem sabe, colher os frutos.

“Queremos democratizar o investimento em imóveis e torná-lo acessível aos pequenos e médios investidores, que não têm grandes fortunas”, diz Danilo Ribeiro, sócio-fundador da Expeer.

Danilo Ribeiro, CEO da Expeer — Foto: Expeer/Divulgação

Danilo Ribeiro, CEO da Expeer — Foto: Expeer/Divulgação

Com a partir de R$ 1.000, é possível investir em condomínios residenciais, empreendimentos comerciais e até bairros planejados. Os retornos podem ser consideravelmente acima da Selic, atualmente em 5,5% ao ano. Os investidores da primeira rodada de crowdfunding imobiliário liquidada no Brasil, no mês passado, pela Urbe.me, tiveram retorno de 18,7% ao ano.

Além do retorno atrativo, o investimento coletivo em imóveis permite ao pequeno investidor participar de um mercado que antes era mais restrito. No formato tradicional de investimento em incorporação imobiliária, o investimento mínimo é alto e o investidor precisa ter uma relação próxima com o incorporador, o que impede que os pequenos participem diretamente desse mercado.

O investimento coletivo em imóveis é diferente de um fundo imobiliário porque, no crowdfunding ou peer to peer imobiliário, o investidor aplica diretamente em um único empreendimento e pode optar por um em seu bairro ou em sua cidade, com o qual se identifica. Já em um fundo imobiliário, um gestor escolhe vários empreendimentos para investir para os cotistas.

Como funciona

O investidor realiza o seu cadastro na plataforma e tem acesso ao portfólio de investimentos. Em seguida, escolhe o empreendimento e faz uma reserva de um investimento no valor desejado.

A oferta fica disponível para investimento por algumas semanas, dependendo da necessidade de capital do incorporador e da disponibilidade de cotas de investimento na plataforma. Cada projeto tem um prazo, normalmente de até 36 meses, e uma expectativa de retorno com base no estudo de viabilidade.

Encerrada a rodada de investimento, o investidor confirma o aporte e realiza a transferência do valor informado na reserva. A partir de então, há dois modelos jurídicos de estruturação dos contratos possíveis.

“No crowdfunding imobiliário, o investidor firma um contrato diretamente com a incorporadora, por meio da plataforma, e passa a ter direito a uma participação sobre as vendas do empreendimento. Quanto maior o valor de vendas dentro do prazo previsto, maior a rentabilidade do investimento — e vice-versa.’

Já no peer to peer imobiliário, o investidor adquire um título de renda fixa emitido por um banco, que paga uma taxa prefixada no momento da aplicação. Esse título é um Certificado de Depósito Bancário (CDB) vinculado a uma dívida do empreendimento com o banco.

Um contrato atrela essa operação às vendas do empreendimento. Ou seja, diferente de um CDB tradicional, quem assume o risco de crédito da operação é a incorporadora, e não o banco.

Algumas fintechs estão migrando do modelo de “crowdfunding” para o modelo de “peer to peer”, porque a CVM não permite que empresas que faturam acima de R$ 10 milhões ao ano captem via “crowdfunding”. A Instrução 588 da CVM, que regulamenta o “crowdfunding” de investimento no Brasil, foi feita pensando na captação de startups, não de gigantes do setor imobiliário.

“Para o investidor final, na prática, há pouca diferença entre o crowdfunding imobiliário e o peer to peer”, explica Francisco Perez, head de investimento da Glebba.

 
Francisco Pérez, head de investimentos da Glebba, fintech de crowdfunding imobiliário — Foto: Ana Carolina Batista Cunha

Francisco Pérez, head de investimentos da Glebba, fintech de crowdfunding imobiliário — Foto: Ana Carolina Batista Cunha

As plataformas cobram uma taxa das incorporadoras por intermediarem a operação. O investidor recebe sua remuneração líquida de tarifas.

Para escolher os investimentos que estarão disponíveis nas plataformas, as fintechs analisam o balanço e o histórico das incorporadoras e a localização e o custo dos projetos. Então, um comitê avalia se o empreendimento será bem vendido e se dará o retorno esperado.

O risco do investimento está ligado à possibilidade de inadimplência da incorporadora. Se a empresa não quitar o empréstimo, porque quebrou ou não vendeu o empreendimento como esperava, o investidor pode ficar no prejuízo. O risco é semelhante ao que se tem ao comprar um imóvel na planta.

As fintechs só colocam nas plataformas os projetos em que acreditam, mas não garantem os rendimentos previstos. Cabe ao investidor analisar os relatórios disponibilizados online e decidir se topa o risco.

“Para facilitar a análise dos investidores, estamos desenvolvendo um sistema de classificação de risco das incorporadoras, baseado em indicadores financeiros”, conta Lucas Obino, sócio-fundador da Urbe.me.

Vale a pena investir?

Não é à toa que os retornos oferecidos são atrativos. É uma forma das incorporadoras compensarem pelo risco da aplicação.

As próprias fintechs deixam claro que não querem que o investidor aloque todo o seu patrimônio nesse tipo de investimento, já que corre o risco de perder tudo. Elas recomendam investir, no máximo, 20% do patrimônio, conforme o perfil de risco do investidor.

Para especialistas em finanças, o investimento pode servir como forma de diversificação da carteira, especialmente para quem é entusiasta de fintechs e de novos investimentos. No entanto, fundos imobiliários podem ser mais atrativos.

“Esse tipo de investimento é mais arriscado do que fundo imobiliário e tem menos liquidez para o investidor sair na hora que quiser”, observa Gustavo Cunha, planejador financeiro e professor de finanças.

Além disso, os fundos imobiliários têm três vantagens competitivas importantes: possibilitam diversificar os empreendimentos investidos, distribuem rendimentos periodicamente aos investidores e são isentos de Imposto de Renda.

No modelo de “crowdfunding” imobiliário, o investimento é considerado um empréstimo para a incorporadora. Assim sendo, o imposto é retido diretamente na fonte, ou seja, o recolhimento do imposto é de responsabilidade da incorporadora.

Já no modelo de “peer to peer” imobiliário, o seu investimento é tributado da mesma maneira que um CDB. Desta forma, a alíquota — que varia de 15% a 22%, conforme o prazo — é descontada diretamente em fonte e incide apenas sobre o ganho de capital.

“Esses novos investimentos em imóveis são para os investidores que aceitam o maior risco de todos e que não estão em busca de renda periódica”, alerta Arthur Vieira de Moraes, especialista em fundos imobiliários e professor de finanças.

Vale lembrar que os fundos imobiliários estão em alta. Eles atingiram a marca de 1 milhão de investidores no 1º semestre deste ano e encontraram um cenário fértil para crescimento. Em um cenário de juros baixos, investidores estão correndo para os imóveis para diversificar sua carteira.

Fonte: https://valorinveste.globo.com

Por Júlia Lewgoy, Valor Investe — São Paulo