Arquivo diários:18 de novembro de 2019

O papel da construção para garantir a sustentabilidade

É fundamental ter um bom projeto elétrico e hidráulico, com propostas sustentáveis, consciência sobre uso racional e materiais certificados

Painéis solares com placas fotovoltaicas, utilização de sistemas de reuso de água e sistemas construtivos com menos desperdício em canteiro, são algumas das ações que as companhias têm realizado.
Créditos: Shutterstock

A preocupação com a sustentabilidade não é mais um diferencial em uma organização e, sim, uma ação primordial para garantir a vida útil e o crescimento da empresa. Pensando nisto, estão surgindo diversas soluções que tem como objetivo diminuir os impactos ao meio ambiente e podem ser incorporadas pelas construtoras, tanto em obras comerciais quanto residenciais.

Preocupadas com o meio ambiente e com a implantação da sustentabilidade, as incorporadoras têm investido cada vez mais na projeção de empreendimentos sustentáveis, com painéis solares com placas fotovoltaicas, utilização de sistemas de reuso de água, jardins suspensos e sistemas construtivos com menos desperdício de materiais em canteiro.

Na questão relacionada ao desenvolvimento sustentável, o Brasil ficou na posição 56º (entre 156 países) com 69,7 pontos. Os Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável (ODSs) em que o Brasil obteve piores desempenhos foram: redução da desigualdade (25,7 pontos); indústria, inovação e infraestrutura (45,3 pontos); e paz, justiça e instituições fortes (47,3 pontos). O melhor desempenho do Brasil foi no objetivo Água Limpa e Saneamento foram de 98,3 pontos. No quesito desenvolvimento sustentável definido pelos ODSs, o Brasil ficou 5,6% acima da média dos países da América Latina e Caribe, mas, ainda assim, muito aquém do desejável. Com relação a todos os países analisados, o Brasil ficou um pouco acima dos 66 pontos, que foi a  média mundial.

De acordo com o Prof. Wilson Levy, diretor do Programa de Mestrado em Cidades Inteligentes e Sustentáveis da UNINOVE, a palavra “sustentabilidade” tem muitos significados. Um projeto sustentável, neste sentido, deve primeiro obedecer às normas técnicas que dispõem sobre o impacto ambiental de empreendimentos. Isso, porém, não exime o projeto de ter uma relação sustentável com seu entorno. “Vale dizer, a sustentabilidade tem também uma dimensão urbana intrínseca: um projeto será sustentável se, também, se relacionar de forma harmoniosa com o ambiente construído ao redor e com a própria cidade que o abriga. Isso abrange a adequação às normas de zoneamento e às diretrizes do Plano Diretor e, numa perspectiva mais particular, os conceitos de gentileza urbana, relativas à funcionalidade e à beleza do projeto”, destaca. Por fim, não se pode esquecer que a sustentabilidade tem uma vertente social muito clara, a envolver, inclusive, aspectos do processo construtivo, da segurança do trabalho e do cuidado com o bem-estar dos trabalhadores da construção civil.

Educação e implantação de projetos sustentáveis

implantação da sustentabilidade em empresas de construção civil no Brasil tem sido um desafio muito grande para os profissionais de engenharia, por se tratar de uma área extremamente tradicional que sente dificuldade em implantar as novas tecnologias no mercado e também alguns dos métodos construtivos que ainda não foram comprovados por testes e normas. Porém, esta tem sido uma demanda cada vez mais buscada tanto por quem irá comprar um empreendimento quanto por empresas de diversos setores e, por isso, é extremamente necessário que o profissional de tais áreas se adapte antes que seja tarde. Em matéria recente do Mapa da Obra, falamos sobre a importância da escolha dos materiais e também dos selos de certificação para que um empreendimento seja considerado realmente sustentável.

Para o docente da Uninove, um projeto sustentável só será bem-sucedido se for produto de muitos olhares e visões, numa perspectiva interdisciplinar que considere, além de engenheiros civis e arquitetos, assistentes sociais, profissionais ligados ao meio ambiente e também técnicos de segurança do trabalho. Além, é claro, de consultores de regulação que analisem a sua aderência ao conjunto de normas que disciplinam o território. Os campus da Uninove, sediados na cidade de São Paulo, foram projetados nos conceitos da ecoeficiência e tem por objetivo proporcionar aos seus milhares de estudantes e profissionais da educação, salas de aulas mais claras e, com isto, colaborar para eficiência energética e hídrica, além de conforto térmico.

Para Levy, o primeiro passo para economizar energia é ter um bom projeto elétrico. A instalação de painéis solares também é medida adequada a essa proposta. E, claro, é fundamental observar os selos de classificação dos eletrodomésticos, para escolher aqueles mais eficientes. Quanto à economia de água, válvulas de descarga a vácuo, redutores de pressão e muita educação quanto ao uso racional deste bem cada vez mais escasso, são medidas indispensáveis. Os materiais também têm extrema importância durante o processo: “os materiais que têm certificações de sustentabilidade e que, uma vez descartados, geram menos impacto ao meio ambiente, são os que melhor se adequam à perspectiva de uma obra sustentável”, orienta.

Startups e novos modelos de negócios sustentáveis

Por isso, a adoção de projetos sustentáveis em empreendimentos novos e a adaptação de edificações antigas a padrões mais elevados de sustentabilidade, por meio de retrofit, são medidas cada vez mais importantes. Além de darem concretude a um apelo cada vez maior de soluções sustentáveis, tais medidas proporcionam, a um só tempo, menor impacto ao meio ambiente, mais economia de dinheiro e recursos naturais, e maior preocupação social.

A preocupação com materiais mais sustentáveis e métodos construtivos deve partir, principalmente, dos engenheiros e arquitetos responsáveis pelo projeto, e também por quem faz a compra de materiais, pensando em materiais que sejam resistentes e ao mesmo tempo duráveis, e que não causem danos ao meio ambiente. Pensando nisso, surgiu a Formação de Jovens Líderes Climáticos da Youth Climate Leaders, que é um curso que promove uma experiência imersiva de oito semanas, na qual os participantes aprendem sobre mudanças climáticas na teoria e na prática, além de ter a oportunidade de trabalhar com jovens de outros países em torno de questões ambientais. “Sem dúvida alguma, as pessoas que querem seguir por esse caminho precisam de força de vontade e proatividade para sair da zona de conforto, liderança para engajar cada vez mais pessoas sobre o tema e liderar em suas regiões iniciativas e projetos que abordem as questões climáticas”, destaca Felipe Isaac, que é engenheiro ambiental e participou do programa.

Observando também novos modelos sustentáveis, Isaac também lançou a Compost, com intuito de abordar diversas temáticas e lançar no mercado uma startup que lide com um grande problema que a maioria das cidades brasileiras enfrentam: a má-gestão dos seus resíduos orgânicos, que representa cerca de 50% de resíduos sólidos. “Oferecemos um serviço que leva benefícios para os clientes que realizam a separação dos resíduos orgânicos”, destaca. “Através da coleta e transformação por meio da compostagem em adubo, inserimos esse composto em uma cadeia de produção de alimentos que retorna posteriormente ao cliente, entidades carentes ou escolas municipais”, conta Felipe Isaac.

Fonte: https://www.mapadaobra.com.br/
Por Carla Rocha

Shopping valoriza imóveis mais do que parque e metrô em São Paulo

No Rio de Janeiro, metro quadrado fica mais caro quando imóvel está mais próximo de áreas verdes, mostra pesquisa

Comprar um lançamento imobiliário perto de um shopping em São Paulo custa até 75% mais do que perto de um centro comercial no Rio de Janeiro. Em contrapartida, morar a alguns passos de uma área verde na capital fluminense pode sair até 62% mais caro do que na capital paulista.

Levantamento do Grupo ZAP a pedido do Estado comparou o preço do metro quadrado em empreendimentos localizados a 300 metros de distância de metrôs, parques e shoppings nas duas maiores capitais do País. A pesquisa foi feita a partir de dados da Geoimovel, plataforma do ZAP que monitora o preço de lançamentos no mercado imobiliário, considerando o valor atual de unidades lançadas a partir de agosto de 2014.

Conforme a amostragem, enquanto em São Paulo o valor médio do metro quadrado de um apartamento novo próximo a um shopping é R$ 13 mil, no Rio é R$ 7.398. No restante da cidade, fora do raio de 300 metros a partir de um shopping, o valor cai para R$ 9.047 em São Paulo, e fica em R$ 7.627 no Rio.

Quando a escolha é ter uma paisagem natural à vista do apartamento, os preços no Rio se sobressaem. Enquanto na capital paulista a média do metro quadrado circunvizinho a parques custa R$ 8.039, para os cariocas o preço vai a R$ 13.073.

Vista aérea do shopping Ibirapuera, à frente de cordilheira de prédios na região de Moema, zona sul de São Paulo. Foto: Felipe Rau/Estadão

Para a economista do Grupo ZAP responsável pela pesquisa, Deborah Seabra, o impacto de shoppings na valorização de imóveis na maior capital do País pode estar ligado, além da preferência do consumidor, à falta de terreno e à alta procura no mercado.

“O preço é um equilíbrio de oferta e demanda. Existem dois fatores que podem estar impulsionando o preço próximo de shopping. Primeiro, a escassez de terreno. Quando eu tenho pouco terreno, fica mais caro construir. O segundo é a alta demanda. A gente sabe que São Paulo é um centro comercial e as pessoas valorizam muito esse tipo de ambiente. Se valorizam muito, vai haver um reflexo no mercado”, explica Seabra.

O professor Eduardo Nobre, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), destaca que existe também um fator cultural na valorização de shoppings na capital paulista. “Tem muito a ver com essa opção de lazer e de consumo que foi criada aqui a partir dos anos 1970. A população de São Paulo gosta de ir ao shopping. Usa-o como espaço de lazer”, diz Nobre.

Já no Rio, a valorização de imóveis próximos a áreas verdes está ligada, em partes, ao perfil carioca de “vida ao ar livre”, explica Ethel Pinheiro, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FAU/UFRJ). Outro fator de destaque, segundo ela, é a segurança de espaços públicos, como parques.

A localização de imóveis perto de locais considerados seguros, que são mais vigiados, acaba pesando. Os parques públicos, hoje, são lugares muito vigiados. Os shoppings não pesam tanto porque a gente gosta da vida na rua. Então, onde a rua estiver policiada e segura, isso vai pesar um pouco mais (no preço)”, avalia a urbanista.

mobilidade é outra amenidade que influencia no momento de se atribuir valor a um imóvel. Na comparação com shoppings e áreas verdes, a proximidade com o transporte público ficou em segundo lugar como fator de valorização tanto no Rio quanto em São Paulo.

Perfil econômico do comprador

Para o publicitário Alexandre Tagawa, que atua nos estudos de inteligência de mercado da incorporadora EZTec, a preferência de imóveis pela proximidade com algumas amenidades (como shopping, metrô e parques) varia de acordo com o perfil socioeconômico dos compradores. Lazer, trabalho e deslocamento pesam na escolha pelo imóvel mais adequado às necessidades dos clientes.

“Quando vamos desenvolver uma campanha publicitária, esses são motes que agregam valor ao produto: poder acessar um shopping, um parque ou uma estação de metrô a poucos passos. Como a EZTec atua em todas as faixas de consumo, desde o Minha Casa Minha Vida até o altíssimo padrão, cada um desses itens importa mais para um determinado público.”

Empreendimentos vistos a partir do Parque do Povo, na zona sul de São Paulo. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Segundo Tagawa, para um imóvel de padrão mais acessível da incorporadora localizado num bairro como o Brás, no centro de São Paulo (com o metro quadrado a cerca de R$ 5 mil), o fácil acesso a estações de metrô e trem tem prioridade. Nas faixas de médio padrão, como o metro quadrado a R$ 8 mil no Tatuapé, zona leste, o transporte divide a preferência com os shoppings. Já na linha de alto padrão, em bairros como Moema, na zona sul, os parques são o foco dos compradores.

De acordo com a professora Ethel Pinheiro, além das amenidades citadas, o valor venal do imóvel leva em conta outros fatores, como área do terreno, idade do imóvel, posição em relação à rua etc. Para se chegar ao valor, ressalta ela, é importante realizar um Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV), que se pauta na Constituição e no Estatuto das Cidades e visa a qualidade de vida nas cidades.

“Ele leva em consideração, por exemplo, o adensamento, os equipamentos urbanos, o uso e a ocupação do solo ao redor do imóvel, como ele é ventilado, como é a mobilidade, o transporte público, quais são os patrimônios ao redor”, esclarece Ethel.

Fonte: https://economia.estadao.com.br/

Isaac de Oliveira

Colaborou Luísa Laval, Especial para o Estado