Arquivo diários:22 de setembro de 2020

Juro e renda menores e pandemia agitam mercado imobiliário

O mercado imobiliário e a construção civil vivem momento peculiar no Brasil.

De um lado, a crise sanitária despertou novos hábitos e necessidades de moradia, como a preferência por imóveis maiores para enfrentar o distanciamento ou a busca por aluguéis mais baratos em decorrência da perda de renda.

De outro, os juros nos menores patamares da história criaram terreno favorável à concessão de crédito e à reabilitação desse tipo de negócio como opção de investimento.

Com isso, passado o mês de abril –o fundo do poço da economia–, o mercado imobiliário não só começou a se recuperar das perdas registradas a partir da segunda metade de março como vendeu mais do que no mesmo período de 2019.

No segundo trimestre, quando o PIB caiu 9,7% (mesma queda registrada pelo setor de serviços), as atividades imobiliárias cresceram 0,5%. As vendas, por exemplo, avançaram 9,7% no período de abril a junho, segundo indicador da Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias) com a Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas).

No segmento econômico (imóveis com preços mais baixos), o aumento foi de 31,8%. Isso porque, segundo Luiz Antonio França, presidente da Abrainc, o segmento de baixa renda é resiliente às crises.

Na outra ponta, as comercializações de imóveis de médio e alto padrão ficaram 37,6% menores no segundo trimestre deste ano ante 2019. Segundo França, esse segmento “balançou”, mas começa a ter uma melhora nas vendas.

“Com a taxa de juros a 2%, o investidor fica muito restrito, e o imóvel passa a ser interessante, com a perspectiva de valorização ao longo do tempo, além do desejo de morar melhor”, diz.

As mudanças de hábito decorrentes da pandemia, por sua vez, afetaram as preferências dessa nova demanda.

O distanciamento social e o trabalho remoto permitiram que muitos trabalhadores deixassem as grandes cidades –alguns em busca de tranquilidade, outros em busca de aluguéis mais baratos–, avalia a economista Juliana Trece, pesquisadora do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia) da FGV.

Desde junho, aumentaram as negociações no interior e no litoral tanto para aluguel quanto para compra de imóveis, afirma o presidente do Creci-SP (Conselho Regional de Corretores de Imóveis), José Augusto Viana Neto.

“O primeiro momento da pandemia foi de um baque grande, mas em abril já houve reação. Quem tem emprego com carteira assinada continua fazendo negócios”, diz.

A busca por casas fora das capitais também é uma tendência observada por Mickael Malka, presidente da inGaia. A empresa, que fornece tecnologia para o setor imobiliário, registrou um aumento de 25% nos fechamentos de contratos e de receita desde março.

O distanciamento social exigiu de imobiliárias e corretores a migração para o virtual –hoje são 7.200 empresas administradoras de imóveis no cadastro.

A movimentação positiva é percebida também por quem trabalha com imóveis usados e com outros tipos de empreendimento, como loteamentos. Até o Google recebeu mais buscas por termos como imobiliárias (+33,2%), classificados (+30,2%) e incorporadoras (+23,7%) no mês de agosto.

Na InstaCasa, que faz a digitalização de projetos para loteadoras, o crescimento foi de 20% desde abril, no embalo da fuga dos apartamentos. A empresa fornece um tipo de “apartamento decorado”, só que virtual e para casas que ainda serão construídas.

O custo menor do crédito deu a mais brasileiros capacidade de financiamento. Em julho, segundo a Abecip (associação das entidades de crédito imobiliário e poupança), houve aumento de 65% no número de contratos para compra da casa própria e avanço de 63,83% no volume de crédito concedido via SBPE, num total de R$ 8,1 bilhões.

Nas locações, houve aumento de 7,35% no total de contratos fechados. Segundo o Creci-SP, porém, o total de imóveis alugados que foram devolvidos ultrapassou em 38% o número de contratações. Na capital, foi mais do que o dobro.

Viana diz que há um aumento no interesse por imóveis fora da capital e longe da região central, onde os preços são considerados altos. “A gente vê um crescimento nas devoluções de locações e muita gente saindo das zonas centrais e indo para bairros periféricos, em busca de aluguel mais barato”, afirma.

“A pandemia afetou a vida de todas as pessoas, que viram a renda cair, muitas perderam o emprego, e iam acabar saindo do imóvel. Então, várias negociações foram feitas entre locatários e locadores”, diz Trece, do Ibre.

Já na construção civil, os avanços são tímidos. O fechamento dos plantões de vendas no início da pandemia derrubou os lançamentos. E, sem novos empreendimentos, não há início de obras. No segundo trimestre, a indústria da construção fechou com recuo de 5,7% no PIB.

Balanço da Abrainc mostra queda de 33,4% nos lançamentos no período de abril a junho.

O setor ainda se recuperava da crise anterior quando a pandemia começou, interditando a confiança em iniciar novas obras. Mesmo assim, há resultados positivos.

De janeiro a agosto, as vendas de cimento cresceram 7,5% ante o mesmo período do ano anterior, puxadas pelas reformas e pela retomada nas novas obras.

Basílio Jafet, presidente do Secovi-SP (sindicato da habitação), diz que a expectativa é de retomada dos lançamentos no segundo semestre. Em julho, 2.015 unidades foram lançadas em São Paulo, avanço de 30% em relação ao que foi colocado no mercado em junho, mas ainda abaixo das 4.183 do mesmo período em 2019.

A partir da liberação para abertura gradual dos estandes de vendas, no início de junho, quem fez lançamentos diz ter conseguido bons resultados.

Mirella Raquel Parpinelle, diretora comercial da Lopes Imobiliária, diz que o resultado em julho foi histórico para a empresa em São Paulo e que o desempenho foi bom em todos os segmentos –o tíquete médio foi de R$ 450 mil.

Um dos lançamentos, um edifício de alto padrão com 144 apartamentos de 36 m² em Pinheiros, foi totalmente vendido em apenas um dia.

Fonte: www.selecoes.com.br