Como será a casa dos brasileiros nos próximos tempos?

O que mudou na forma como os brasileiros moram nos últimos anos?

Qual sua relação com a casa, a decoração, a arquitetura? Existem diferenças entre as gerações? 

Foi pensando em dar respostas a essas inquietações e em estudar a fundo essas mudanças que a área de estratégia da agência de propaganda Young & Rubicam realizou, com o apoio de CASA CLAUDIA, um estudo, que incluiu longas entrevistas com arquitetos, antropólogos, psicanalistas e designers, para captar a essência desse novo morar.

“Queríamos entender as múltiplas tendências e os principais valores que foram se adaptando ao longo do tempo e hoje influenciam a relação das pessoas com sua casa”, explica Sumara Osório, diretora de planejamento da agência. “Os perfis foram montados de acordo com essas tendências e esses valores, permitindo interpretar como se transformam em comportamentos e hábitos de consumo”, completa.

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(Nicolau El-Moor/Revista CASA CLAUDIA)

O trabalho, que faz parte de uma pesquisa maior, em andamento, chegou a quatro perfis, que representam as novas formas de morar: CASA CLUBECASA EMPRESACASA HOTELCASA GALERIA
Idealizada para atender aos desejos de moradores e de seus convidados, a CASA CLUBE tem vida social intensa. Está sempre cheia de amigos em jantares, almoços e baladas. Os ambientes de convivência são os mais valorizados e o foco das atenções. Outro perfil é o da CASA EMPRESA. Ali as pessoas dividem a intimidade com o trabalho, administrando o tempo, o dinheiro e a qualidade da relação entre os moradores. Em geral, atrai quem está mais preocupado com o consumo consciente e o segredo-chave é a otimização.
 

Cada vez mais presente nas grandes cidades, a CASA HOTEL é para quem tem vida prática e precisa de espaço funcional para dormir confortavelmente e com vários serviços de conveniência ao redor. Quase o oposto, a CASA GALERIA tem presença marcante de obras de arte e design. O décor de seus espaços generosos e abertos vive em ritmo fast fashion com mudanças frequentes de visual. Costuma ser a cara de seus donos, que amam exclusividade. Esses são indicadores do que, de certa forma, já começa a virar realidade. Mesmo porque a relação das pessoas com a moradia vive em constante transformação.

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(Guilherme Galembeck/Revista CASA CLAUDIA)

Há dez ou 20 anos, os espaços eram mais determinados e não havia a integração entre os ambientes. Hoje a divisão mais tradicional (sala, quartos e cozinha) quase não existe mais. E as mudanças só foram possíveis na medida em que as relações interpessoais das famílias também se alteraram – ficaram mais democráticas, transparentes. Receber as visitas mais chegadas junto do fogão e da geladeira e as formais no living é coisa do passado. As áreas “escondidas” começam a se mostrar e a compor o cartão de visita, assumindo um status parecido com o dos espaços mais nobres. “Com a internet e as mídias sociais, o conceito de intimidade é outro, os limites entre o público e o privado ficaram tênues e a casa se abriu”, diz Pedro de Santi, psicanalista, especializado em comportamento humano.

Tudo isso influencia de maneira direta o mercado imobiliário. Basta observar como as casas maiores ganharam projetos em que os grandes espaços estão integrados e também a quantidade de microapartamentos lançados nos dois últimos anos, de olho em uma geração mais jovem, que vive com menos e tem seu foco maior voltado para o espaço público.

“Com a internet e as mídias sociais, o conceito de intimidade é outro, os limites entre o público e o privado ficaram muito tênues e a casa se abriu”

Pedro De Santi, psicanalista

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(Paul McCredie/Revista CASA CLAUDIA)

Em total sintonia com as tendências, o projeto da casa do arquiteto australiano Andrew Simpson (à esq.), de sua própria autoria, tem como principal característica facilitar a circulação das pessoas em ambientes integrados e abertos, banhados por muita luz natural.

 

 

 

 

 

 

 

 

Crise econômica, violência urbana e dificuldades de mobilidade – com transporte público longe do ideal e trânsito pesado – levaram as pessoas a repensar a dinâmica do morar. “A ideia de compartilhar a casa com os amigos ficou mais presente do que nunca”, diz Abadia Haich, arquiteta e designer. Gente que hoje tem entre 30 e 40 anos e prefere reunir as pessoas para pequenos jantares ou para um bate-papo. É mais seguro, agradável e, na maioria das vezes, sai mais em conta. “Com isso, aparece também o desejo de mostrar uma casa bonita, acolhedora e, ao mesmo tempo, a necessidade de investimento em serviço de qualidade e em design autoral.”

Junto dessas mudanças, cresce a preocupação ambiental, com forte influência no novo morar. Na mesma proporção, a arrebatadora presença da tecnologia vira protagonista na maioria dos departamentos da vida contemporânea, em especial no cotidiano doméstico. Só mesmo quem cultiva o velho “bicho grilo way of life” não sente falta de micro-ondas e de celular com todos os aplicativos – hoje imprescindíveis para manter contas em banco e hábitos prosaicos, como usar serviços de táxi, de delivery dos mais variados tipos e até acessar sites de relacionamento para esquentar a vida amorosa. Tudo praticamente sem sair de casa.

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(André Nazareth/Revista CASA CLAUDIA)

Nos megacentros urbanos, como São Paulo, Nova York e Tóquio, continua a busca pelo silêncio e pela privacidade, seja em enormes espaços de luxo, seja em microapartamentos, caros, bem localizados, cheios de comodidades, muito procurados por solteiros, divorciados e viúvos, interessados em simplificar a rotina com o que precisam à mão. É a tendência ao desapego, que também começa a entrar em cena em outra vertente, nas mesmas metrópoles, entre pessoas pouco ligadas em ter.

Em geral, jovens que alugam casas ou suítes, passam mais tempo fora, no trabalho ou na rua, e procuram viver o presente sem medo de ser feliz. Mudam de atividade e de endereço com certa frequência. A maioria só anda de bike e defende o consumo consciente. Acumular está fora de moda e não faz sentido. As demandas do planeta inviabilizam o desperdício”, diz Facundo Guerra, um descolado empresário da noite, sempre ligado no que virá e em pleno processo de reavaliação do seu jeito de morar – ele vive sozinho num casarão em um bairro nobre de São Paulo. “As pessoas preferem experiências memoráveis, em vez de, como nos anos 1990, trabalhar feito loucos para comprar casas incríveis no futuro.”

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(Guilherme Galembeck/Revista CASA CLAUDIA)

Na mesma linha, há uma nova geração arriscando maneiras incomuns de relação com o trabalho, o que influencia os conceitos de morar. Compartilhar é a palavra-chave. Por isso, a presença dos co-works, casas escritório e de empresas com cara de casa. “A cada dia, fica distante a noção de tempo específico para cada atividade, como trabalho, lazer, entretenimento, ócio”, diz o sociólogo e jornalista italiano Francesco Morace, coordenador do Future Concept Lab, um dos mais importantes centros de pesquisa sobre tendências do mundo.

O tempo segmentado não existe mais, assim como exercer apenas uma função em um local fixo (um escritório fora de casa, por exemplo) tende a ser coisa do passado. Os home offices ou qualquer lugar com wi-fi assumem usos múltiplos para quem tem mais de uma profissão. Já não surpreende alguém exercer a função de jornalista freelancer durante do dia e à noite a de DJ ou fazer sites e se dedicar à produção e venda de pão orgânico. Tudo junto, sem horários rígidos, dentro de casa para o mundo – e sempre online, claro.

 “As pessoas preferem experiências memoráveis, em vez de, como nos anos 1990, trabalhar feito loucas para comprar casas incríveis no futuro”

Facundo Guerra, empresário

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(Gui Morelli/Revista CASA CLAUDIA)

Fonte: casaclaudia.abril.com.br

O empresário da noite Facundo Guerra, que está revendo os conceitos de moradia, em uma das salas do casarão onde mora sozinho, num bairro nobre de São Paulo, rodeado de móveis, objetos e coleções. “Não preciso de tudo isso, mesmo porque nos dias de hoje não faz sentido acumular.”