Igreja ‘flutua’ para ser preservada em obra do complexo Matarazzo.

Resultado de imagem para Igreja 'flutua' para ser preservada em obra do complexo Matarazzo

Um delicado projeto de engenharia executado nos últimos nove meses conseguiu deixar suspensa, a uma altura de 31 metros, uma capela de 1.200 toneladas do antigo Hospital Matarazzo, a uma quadra da av. Paulista, na região central de São Paulo.

A operação, que surpreendeu quem mora e trabalha ao lado do terreno, foi projetada para proteger a estrutura da Igreja de Santa Luzia durante as obras do futuro complexo Cidade Matarazzo. Inaugurada em 1922 pelo arquiteto italiano Giovanni Battista Bianchi, ela é tombada pelo Condephaat (conselho estadual do patrimônio histórico).

Ao redor da igreja, será construído um conjunto com hotel, shopping e uma torre de 22 andares assinada pelo arquiteto francês Jean Nouvel, vencedor do prestigiado prêmio Pritzker, em 2008, e autor do ambicioso projeto do museu do Quai Branly, em Paris.

Em São Paulo, será o primeiro projeto do arquiteto. Em 2001, ele foi contratado no Rio para a instalação de uma filial do museu Guggenheim na região do Píer Mauá, mas a execução acabou barrada após polêmicas (inclusive pelo custo) que chegaram à Justiça.

De acordo com o engenheiro Maurício Bianchi, responsável pela obra no complexo Matarazzo, foi necessário manter a capela suspensa para aproveitar ao máximo o terreno de 27 mil m². Ele explica que várias partes do antigo hospital são protegidas pelo patrimônio histórico, o que obriga o aproveitamento máximo de cada centímetro.

Um sistema de oito profundas colunas -com 31 metros de altura, além de outros 23 metros sob o solo – conectadas por uma laje foi construído no entorno e abaixo da capela, que originalmente possuía só 1,5 metro de fundação.

Resultado de imagem para Igreja 'flutua' para ser preservada em obra do complexo Matarazzo

Para evitar qualquer rachadura, a escavação das colunas não foi feita com bate-estacas, mas sim com uma perfuratriz de baixa percussão, da maneira mais lenta possível. “Eu deixava até um copo de água sobre o altar para ter certeza de que as vibrações eram mínimas”, conta Bianchi.

Só então foi iniciada a etapa mais delicada. Por processos como o hidrojateamento, espécie de bombeamento de água sob alta pressão, a terra acomodada sob o prédio foi lentamente removida – e a enorme estrutura se revelou.

Ao longo de semanas, o solo sob a capela erodiu até que a construção se acomodasse sobre a nova sustentação. “Ficamos ilhados”, brinca Bianchi, que instalou uma ponte entre o nível da alameda Rio Claro e o perímetro da capela.

Questionado sobre os eventuais prejuízos que a operação causou ao prédio, ele é categórico: “O resultado é impecável. Apesar da estrutura de tijolos antigos, não houve absolutamente nenhum dano”.

Abaixo da capela, serão construídos oito subsolos. Cinco deles serão destinados a estacionamentos. Os demais abrigarão áreas de apoio para o hotel (como cozinhas e cinema) e um espaço chamado “creativity center”, destinado a conferências e eventos.

Apenas o piso da capela Santa Luzia sofreu modificações. Para mantê-lo intacto e sem quebras, foi necessário desmontá-lo em peças, que foram catalogadas uma a uma, como em um quebra-cabeças. O altar também seria removido, mas os engenheiros temeram danos ao mármore e preferiram instalar sob ele uma laje adicional de sustentação.

Hoje, toda a área ocupada pelo antigo Hospital Matarazzo pertence ao empresário francês Alexandre Allard, conhecido por investir em projetos de modernização de edifícios antigos. O negócio foi fechado em 2010 pelo valor de R$ 117 milhões, após oito anos de negociação. A expectativa é que o restauro das instalações, assim como sua expansão, custe ao Grupo Allard R$ 1 bilhão e que a obra fique pronta no final de 2019.

O hospital (cujo nome original era Umberto I) foi erguido em 1904 pelo empresário Francesco Matarazzo e se tornou um ícone da arquitetura neoclássica de São Paulo.

O interior da capela Santa Luzia tem detalhes em escaiola amarela, técnica italiana do século 17 com pó de jaspe para reproduzir a textura polida e as cores do mármore.

Somente em 1986, os prédios que compõem o complexo foram tombados pelo patrimônio histórico e cultural do estado de São Paulo. A partir de 1993, com a falência da fundação que o administrava, o Hospital Matarazzo acabou fechando as portas.

 

Fonte: http://www.ademi.org.br

Por: Folha de São Paulo, Fillipe Mauro, 05/jul